ALERTA AO POVO BRASILEIRO : “Sistema Petrobras: Vale a pena vender ativos estratégicos?”


 

 

 

 

Rubens Teixeira, Henrique Forno e Márcio Araujo*

 

 

Artigo publicado no jornal Nação Brasil

 

A decisão de investimento em qualquer setor da economia requer cuidadosos estudos de cenários econômicos para as condições de oferta e demanda no horizonte de tempo considerado, além de uma razoável dose de coragem.

Entre esses cenários, vários incluem o petróleo como matéria-prima e recurso energético predominante da economia mundial nas próximas décadas. Essa tendência, no longo prazo, pode ser questionada pela entrada de energias alternativas como a eólica e a solar, consideradas por alguns como mais limpas, mas que estão ainda a preços não muito competitivos, não devendo ameaçar tão cedo o domínio dos hidrocarbonetos, considerados fonte mais baratas mas muito poluidora.

O preço do petróleo e de seus derivados variam em função do nível da atividade econômica e da inovação tecnológica, tanto na exploração, produção, refino e logística. A logística do setor petróleo, por sua vez, é fator preponderante na sua gestão. Dados os grandes volumes e distâncias de fluidos transportados, ela influi de forma importante na formação de preço da matéria prima e seus derivados.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, desprestigiar a logística do petróleo é inviabilizar o desenvolvimento nacional, prejudicar o consumidor e a sociedade. O controle não apenas das reservas e produção, mas também do seu transporte e distribuição reveste-se de caráter estratégico.

Atualmente, o mercado do petróleo em todo o mundo está em baixa. São vários fatores que influenciam esse cenário. A tecnologia que permitiu a produção em larga escala do gás de xisto (shale gas) pelos EUA, junto com o desaquecimento da economia internacional e a decisão de reduzir o preço do petróleo, tomada pela OPEP, fez o preço do barril do petróleo cair. Por outro lado, as denúncias de mau uso dos recursos na Petrobras, associadas ao desaquecimento da economia brasileira, contribuíram para a desvalorização das ações daquela empresa.

Nessa conjuntura, uma eventual decisão de alienação de parte da infraestrutura de transporte do sistema Petrobras, essencial na cadeia produtiva do petróleo, adquire um caráter preocupante, por ser excessivamente focado no curto prazo e baseado em lógica mais financeira do que econômico-estratégica. Um processo de desinvestimento sem o devido cuidado com a inserção de longo prazo da empresa pode trazer graves prejuízos ao Brasil.

No atual contexto de aparente subvaloração dos papéis da Petrobras, parece ser no mínimo inoportuno alienar ativos essenciais na lógica operacional da empresa. Em um processo de desinvestimento desse tipo, pode-se atingir de forma mortal não apenas o futuro da empresa, mas, também, a estratégia de inserção internacional do país. Como exemplo, a venda do sistema de transporte por dutos fornece ao comprador praticamente o monopólio dos preços a longas distâncias no território nacional, especialmente para as áreas fora dos trajetos de navios.

A sociedade brasileira, dona majoritária do Sistema Petrobras, precisa ser protegida de decisões discricionárias que parecem resolver o problema de caixa presente, mas que podem causar prejuízos muito maiores no futuro. O gestor que faz um mau negócio tem seguro para cobrir suas decisões ruins, se não houver má fé. Porém, a sociedade não tem nenhum seguro contra um prejuízo amargo e duradouro.

* Rubens Teixeira, Henrique Forno e Márcio Araujo são doutores em economia, engenheiros e analistas do Banco Central do Brasil. São autores do livro “Desatando o nó do crescimento econômico: propostas econômicas e jurídicas para o sistema financeiro nacional”. As opiniões colocadas pelos autores deste artigo não expressam o ponto de vista da instituição a qual eles estão vinculados.

 
* O primeiro autor é ex-diretor da Transpetro

 

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