Como se eleger? Saiba o segredo


Lineu Edison Tomass*

Em 1988 o Roberto Requião era o prefeito de Curitiba, e no mês de novembro houve eleições para vereadores e para prefeito de Curitiba, ocasião em que fui indicado pelos cinco diretórios zonais do PMDB de Curitiba, com mais de 28 mil filiados, como secretário da campanha eleitoral do então candidato do PMDB a prefeito de Curitiba,  o deputado federal, Mauricio Fruet, de saudosa memória.

Mauricio Fruet, foi um personagem que se destacou no cenário da política do Paraná, pela sua popularidade e seu alto senso de humor.

Durante a campanha política e nas andanças pelos bairros de Curitiba,  o Mauricio fazia questão de sentar-se no carro,  na frente ao lado do motorista, pois assim sentia-se mais à vontade para acenar ao povo, quando então distribuía seu largo e sincero sorriso. Chorei no seu velório. Ele era o que se chama popularmente,“um figuraço”.

Nestas andanças, um dia, em esquina lá pelos lados do bairro Batel, um cidadão olhou para o Fruet, e  parece que ficou na dúvida se o reconhecia ou não.

Fruet, ficou matutando, tipo assim: “Ué, será que ele não me reconheceu”?

Em seguida olhou para trás e perguntou-me: “Lineu, o que será que leva um cidadão a decidir seu voto por um candidato”?

Respondi-lhe que esta pergunta era de difícil resposta e, entretanto fiquei inculcado com esta pergunta do Mauricio Fruet, passei a “bolar” uma resposta., e após mais de um ano de raciocínio e pesquisa nas planilhas dos resultados dos votos das eleições, notadamente proporcionais (vereadores e deputados), e usando o método do “geral para o particular”, consegui classificar o perfil dos candidatos eleitos, dos mais votados aos menos votados,  buscando um perfil de suas respectivas inserções sociais e nível de influência na decisão do voto do eleitor, de onde pude estabelecer uma tabela de nível de eleitos de 1ª. até 6ª. categoria, como chances de se ganhar a eleição, cuja tabela por ordem de importância pode ser assim classificada:

1ª. Categoria. Candidatos da Fama.

A primeira e maior chance  de eleição, está com os candidatos famosos na sociedade, que atuam na mídia do rádio ou televisão, onde se incluem atletas, comunicadores, cantores ou atores, desde que famosos junto ao povão e que detenham alta aprovação no índice de audiência de seus programas ou apresentações.

Aqui em Curitiba e no Paraná, temos diversos exemplos históricos de eleitos nesta categoria de comunicadores; Luiz Carlos Martins, Carlos Simões, Íris Simões, Algaci Túlio, Ratinho (o pai e o filho), Jocelito Canto, Marcelo Rangel (de Ponta Grossa), Alborgueti, Barbosa Neto e Belinati (de Londrina), e seguem tantos outros, sempre bem votados a exemplo do radialista “Pinga Fogo”, famoso em rádio no norte do Paraná, que se elegeu deputado federal. Renunciou seu mandato em grande estilo. No Plenário da Câmara Federal ele era mais um dos mais de 500 deputados federais.

No País tivemos exemplos clássicos de eleitos com tranqüilidade com o uso da fama, como o cantor Moacir Franco, que se elegeu deputado federal só uma vez  e se arrependeu amargamente da experiência.  Aguinaldo Timóteo também se elegeu e continua na política. Ficou famoso quando mandou um “tcháu” para sua mamãe em plena entrevista em Brasília.

2ª. Categoria. Candidatos da Grana.

Neste patamar está a turma que compra votos na eleição. É a turma da “grana” que se elege a peso de ouro. Esta categoria de candidato tem que ter muito dinheiro mesmo, pois o retorno do “investimento” em nível de votos ronda mais ou menos vinte por cento, ou seja; para cada cem votos comprados dá para contar com uns vinte votos na urna. Este jogo é pesado.

Alguns buscam preencher o espaço vazio de suas vidas, outros buscam proteção da lei (com a imunidade parlamentar), para postergarem condenação na justiça, até por sonegação fiscal e outros crimes graves.

Aqui em Curitiba, tivemos exemplos marcantes com uma candidata a vereadora (milionária), e um candidato irmão de outro milionário com alto poder de fogo no poder legislativo do Paraná, que sem trabalho nenhum junto ao eleitorado, elegeram-se com votação média, com altos investimentos em cabos eleitorais, larga folha de auxiliares (lideranças de bairros), e até presentes (relógios de parede), para as donas de casa com bonita mensagem, e muita reunião com a famosa “lingüiça de campanha”, de terceira qualidade e bem barata.

Acompanhei pessoalmente um caso destes. Um grande empresário de Curitiba (já falecido), se elegeu a deputado federal e desancou a gastar grana a granel na campanha. Tinha que se eleger para se livrar de processos em andamento na Justiça.

Durante a eleição, fui a uma igreja na região norte de Curitiba e levei um susto! Ao lado da Igreja tinha surgido uma construção enorme de um grande ginásio de esportes que nasceu da noite para o dia.  Perguntei aos amigos da região; “que milagre era aquele”?  A resposta foi curta e grossa. O líder da igreja tinha feito um acordo com o dito candidato para a comunidade votar nele em troca do ginásio!  E assim foi feito o acordo, cumprido por ambas as partes.

O candidato se elegeu foi para Brasília, nada fez pelo Paraná, e passou a ser protegido pela “imunidade parlamentar”, que era o que buscava para usar o cargo e negociar os impostos que devia para o Governo Federal e Estadual, sem ser processado, é óbvio que colocou seu voto na Câmara à disposição do Governo.

3ª. Categoria. Candidatos de Proposta Ideológica e Programática.

Neste patamar se encontram os candidatos que deveriam estar no 1º. Patamar, pois são os candidatos que acreditam em uma proposta política que é veiculada e propagada durante anos e anos. Demoram a convencer os eleitores já que seus nomes são construídos ao longo de anos. Perdem muita eleição até convencer o eleitor, pois a mídia pouco espaço lhes dá.

No Paraná tivemos exemplos nos nomes de ex-deputados federais, Alencar Furtado e Hélio Duque. O Requião é um típico exemplo, pois sempre vendeu a idéia da moralidade pública. No PT diversos nomes estão nesta categoria, tais como o deputado Rosinha, o Vanhoni e tantos outros.. No País incluímos o Lula que peregrinou pelo Brasil todo, até vencer a eleição para Presidente da República.

4ª. Categoria. Nome famoso.

Esta chance de se eleger é para poucos, pois exige que o candidato tenha um pai ou tio famoso e popular que possa transferir seu prestígio para o parente próximo, filho, irmão, neto ou sobrinho.

Em Curitiba o exemplo mais clássico é do Vereador Derosso, que dominou os votos do Alto Boqueirão por décadas, com bom trabalho,  até  que resolveu se aposentar e lançou o filho João Cláudio Derosso na sua sucessão. Muitos eleitores votaram no filho, pensando que votavam no pai, Derosso. O filho Cláudio se firmou e se consolidou.

O Beto Richa, prefeito de Curitiba, na sua primeira candidatura a vereador (foi 1º. Suplente), pegou carona no nome do pai, o ex-governador José Richa. Isto aconteceu com o Gustavo Fruet, (no prestígio do pai Maurício), com o Ratinho Junior (no prestígio do Pai Ratinho).

Há alguns casos de que o filho não emplacou, o que põe em dúvida  o poder de transferência do voto do pai, que embora famoso, não pode estar desgastado. Temos também que considerar que o “afilhado”, tem que corresponder durante a campanha a um mínimo do que espera o eleitor dele. Caso contrário, mesmo famoso o nome do pai, o “afilhado” poderá não chegar ao poder.

Em Curitiba, o filho do dono de uma rede de televisão não se elegeu a vereador.

5ª. Categoria. A Raridade do Milagre.

Quando acontece este fenômeno a eleição é favas contadas. É o chamado milagre ou fenômeno na eleição.

Em nosso Estado, dois casos merecem destaque na categoria “milagre”, e que provam a certeza deste ensaio.

Quando o prefeito Jaime Lerner (ARENA), em 1978 fez a reforma do centro de Curitiba, o Pedro Lauro, era dono de uma banca de revistas na Praça Tiradentes e perdeu a concessão.  O Pedro Lauro, inconformado, saiu por toda Curitiba, criticando a gestão de Lerner e, como era ano de eleição o pessoal do MDB, adversários ferrenhos de Lerner,  lançaram o Pedro Lauro, como candidato a deputado federal, dando-lhe o maior apoio de mídia.

Era o ano da virada contra a Ditadura Militar de 1964 que mandava no País, e não deu outra, o MDB teve tantos votos de legenda, a ponto do Sr. Pedro Lauro, se eleger com uns míseros 3.400 votos.   Pedro Lauro foi o candidato do “milagre”.

Outro exemplo foi o do Sr. Osvaldo Alencar Furtado, que era irmão do famoso deputado federal Alencar Furtado, que fazia uma dobrada com seu filho (candidato a deputado estadual) pelo PMDB em 1983, o jovem advogado Heitor Alencar Furtado, militante  do então clandestino PC do B, o qual foi assassinado no Norte do Paraná em plena campanha.

Heiitor, foi substituído na chapa do PMDB, pelo seu tio o Sr. Osvaldo Alencar Furtado, que se elegeu com expressiva votação nesta carona de um “milagre”, pela morte de  seu sobrinho.

6ª. Categoria. Candidatos do Rebolo.

Em último lugar se elegem os candidatos que possuem uma parcela de cada um dos itens acima, ou seja; possuem um pouco de fama pelo menos na sua inserção profissional, aparecem um pouco na mídia.

Possuem ou conseguem alguma grana para sustentar sua campanha política.

Conseguem se inserir de algum modo em movimento de caráter social, com proposta ideológica.

Possuem nome de família respeitável na comunidade.

Contam com uma ajuda quase milagrosa, como é o caso de um candidato que se filia em um partido de médio porte, sem candidatos de alta votação, e se elegem proporcionalmente com baixa votação, e assim chegam na disputa das últimas vagas, ou seja, ficam no “rebolo”, quando podem perder a vaga (morrer) por poucos votos. “Rebolo”, é uma caixa de madeira redonda, com tampa em cima, onde se colocam dois galos de briga que empataram, até que um seja morto.

Os demais candidatos que não se enquadram nestas categorias, seguramente serão classificados como suplentes, e seus votos só servem para ajudar os privilegiados candidatos encaixados nestes seis critérios.

É necessário registrar que os já eleitos e com mandatos, voltam sempre aos seus cargos, na proporção de 60% até 70% da composição de sua casa legislativa, pois estão em campanha permanente durante os quatro anos de sua legislatura.

Estas são as variáveis que dão a certeza de uma eleição em campanha política. É só guardar este artigo e conferir o resultado da próxima eleição.

Este ensaio esteve rascunhado na gaveta ao longo dezenove anos, tempo em que continuei a observar os demais resultados das eleições, e eles continuam balizando para estas seis variáveis de possibilidades de um candidato se eleger, num País que ainda tem 72% de sua população classificados como “analfabetos funcionais”, de acordo com os critérios das Nações Unidas.

Nossos políticos eleitos refletem a média cultural do nosso povo, o qual ainda vota com critérios de “desconstrução” do exercício da cidadania.

No momento é o que temos em nossa realidade como resultado de nosso estágio cultural, em fase de frágil democracia.

OBS: Este é um ensaio de sociologia política.

Fonte: https://lintomass.wordpress.com/o-segredo-como-se-eleger/

Lineu Edson Tomass é advogado e jornalista.

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